Adeildo Gomes de Rezende, que assumiu a presidência em março do ano passado detalha a reformulação efetuada no hospital São Vicente de Paulo e diz que a salvação depende de ampla união de esforços
Corte de mais de 100 funcionários, alguns saindo espontaneamente; redução das mais variadas despesas; projeto de unificação da portaria com a instalação do Plano de Saúde, que vai gerar uma economia de mais de R$ 40 mil mensais entre gastos com médicos e aluguel; acordo com a Secretaria de Estado da Saúde, que passa a creditar a remuneração dos médicos na conta de cada um deles; entendimentos com a prefeitura a fim de aumentar a arrecadação do PU (Posto de Urgência); ampliação e modernização da UTI, que passa de cinco para 10 leitos, equipada com equipamentos de última geração; recursos garantidos para a compra de equipamentos para a Hemodiálise.
O presidente do HSVP resume as ações implementadas para enfrentar a gravíssima crise por que passa a instituição, mas entende que a situação é tão dramática que exige algo muito mais importante: a integração de todos os bom-jesuenses para salvar um dos seus mais expressivos ícones. O referencial de alívio nos piores momentos da vida de cada um precisa recobrar sua capacidade de atender satisfatoriamente aos que o procuram, reabilitar sua reputação de eficiência e qualidade. E isso requer sacrifícios, como afirma Adeildo nesta entrevista:
O HSVP continua gastando mais do que arrecada?
Infelizmente, sim. O SUS contribui para tornar os problemas ainda mais graves na medida em que nos repassa valores menores do que deveria. Temos um custo de funcionamento, e os repasses feitos pelo SUS há muito tempo não são atualizados, tornando o hospital deficitário nas contas. Apesar de todos os ajustes por nós efetuados, a situação é tão difícil que a gente tem atravessado momentos de pânico, de desespero.
A redução das despesas então não adiantou...
Foi muito importante, mas as circunstâncias são tão desfavoráveis que, por outro lado, começamos a perder receitas por conta da paralisação dos médicos, além do que a redução das despesas só são sentidas a médio prazo.
E o que tem sido feito para atrair esses profissionais novamente?
Tomamos uma medida sumamente importante junto à Secretaria de Estado da Saúde. Por intermédio de ofício e reuniões das quais participamos eu e o secretário Municipal de Saúde, Dr. Francisco, ficou acertado que a remuneração dos médicos passará a ser creditada pela Secretaria diretamente na conta individual de cada um deles.
Como funcionava?
Antes os recursos vinham misturados no bolo, quase sempre diluídos para pagamento das outras despesas em prejuízo dos médicos.
O Sr. acredita que essa garantia de recebimento dos honorários irá sensibilizá-los?
É um ponto determinante, mas não o único. As próprias condições de trabalho em instalações modernamente equipadas, como a UTI e a Hemodiálise; a redução da estrutura administrativa e operacional, que dotarão o hospital de melhor organização e fluidez das tarefas, e fundamentalmente o espírito de colaboração de todos.
Fotos: Digiart
Um alento em meio ao drama: equipamentos de última geração equipam a nova UTI
A prefeitura tem ajudado?
O serviço de Hemodiálise foi reaberto?
Ainda não, mas esperamos fazê-lo em breve. Temos R$ 400 mil reservados na conta unicamente para a compra dos equipamentos, conseguidos junto à Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) com o prestimoso auxílio do bom-jesuense Dr. Rui Garcia Marques, presidente daquela instituição.
Logo que assumi, o Dr. José Roberto paralisou os serviços da Hemodiálise alegando necessitar de suporte adequado aos seus pacientes, como uma UTI funcionando na plenitude e médicos de retaguarda. Agora com a UTI ampliada e dotada de equipamentos os mais modernos, resta-nos solucionar a questão dos médicos para fazermos um convite de retorno ao Dr. José Roberto, o que acredito obteremos êxito.
Não é um paradoxo que o hospital ande tão mal das pernas e o Sr. anuncie uma UTI de alto nível?
Não, porque a UTI é fundamental para a operacionalização do hospital em todos os sentidos. Cito novamente a hemodiálise, que não poderá retornar sem uma UTI adequada. A nossa nova UTI é motivo de orgulho, conseguida também com o auxílio do Dr. Rui e da Faperj, que nos destinou R$ 500 mil que usamos para a compra dos modernos equipamentos. Esta semana técnicos virão treinar nosso pessoal para o uso dessas máquinas, e dentro de uns 15 dias estaremos inaugurando oficialmente a nova UTI.
O Sr. acredita estar fazendo um bom trabalho?
Tem momentos que a gente até acha que perdeu as forças. O hospital é uma empresa muito grande, difícil de ser administrada, com muitos problemas, muitas idéias, com separação de grupos de pessoas. Unificar tudo isso é impossível. A tarefa é grandiosa, teríamos de ter mais pessoas para ajudar neste momento. O nosso Conselho, um pouco dividido até agora, me parece que conseguiu se ajustar, entrar em acordo. As ações são difíceis, o momento é difícil. O hospital passa por uma situação perigosa. Mas entendo que é necessário continuarmos na trajetória que traçamos, ou seja, diminuirmos a estrutura do hospital eliminando as ´gorduras´ e tentando trazer o HSVP para o ponto de equilíbrio, que é não gastar mais do que arrecada.
Diminuir a estrutura?
Sim. Tínhamos cerca de 120 leitos, que estamos reduzindo para 60/70. São ações importantes que farão o hospital funcionar da mesma forma com um gasto bem menor.
E quanto ao Banco de Sangue, que também paralisou as atividades?
Como a UTI, o Banco de Sangue também é fundamental numa instituição como a nossa. Tudo no hospital está muito difícil de funcionar. Tivemos também a perda da Dra. Sandra (a responsável pelo Banco), que saiu sob a alegação de que teria sido aprovada num concurso em Campos dos Goytacazes e assumiria lá. É uma área difícil a de conseguirmos profissionais. Estamos com uma médica no Rio de Janeiro fazendo curso, que demora certo tempo. Também estamos buscando outro profissional médico porque no Banco tem de haver um titular e um substituto. Há uma necessidade muito grande de o Banco funcionar como retaguarda. Nossos diretores Dr. Celso (diretor-Técnico) e Dr. Davson (diretor-clínico) estão lutando conosco em várias frentes, inclusive na busca desse profissional. A prefeitura tem ajudado?
Tenho notado grande preocupação da prefeita Branca Motta com a situação do hospital. Vamos tentar nos entender com ela objetivando um reajuste da parcela do PU (Posto de Urgência).
Desculpando-nos pelo trocadilho nada criativo, o hospital vai sair da UTI?
Temos de acreditar. Eu acredito. No entanto, não tenho ilusões de que será fácil. O momento é de união, de esforços múltiplos pela causa. Precisamos do apoio de toda a sociedade organizada, das instituições públicas e privadas, de um esforço concentrado em todas as frentes, desde o poder público – prefeitura, governos, até ao cidadão comum.
E qual a iniciativa que foi ou será tomada no sentido dessa integração de esforços?
Fizemos uma reunião do Conselho onde discutimos a situação, ficando decidido que faremos um convite a toda a sociedade bom-jesuense, a todos os órgãos para participarem de uma reunião que agendaremos. Nessa reunião eu apresentarei a situação atual, o que está sendo feito, e pedirei ao povo uma participação maior neste momento, uma reunião de forças em todos os sentidos, e ajustarmos um termo de ação para angariarmos recursos, promovermos bingos, essas coisas, tudo o que pudermos fazer para salvarmos nosso hospital. Provavelmente isso será realizado neste mês de fevereiro.
Espaço livre.
Só vejo esta fórmula de conseguirmos manter o HSVP, que é juntarmos toda a sociedade, sem distinção partidária, ideológica. O povo bom-jesuense já demonstrou que tem disposição e vontade de ajudar. Assim que entrei, em março, não tínhamos um kg de alimento nas prateleiras do hospital. Fizemos campanha e enchemos o hospital de mantimentos, material de limpeza, doações. Então conseguimos naquele momento continuar respirando. E com coragem, seriedade e determinação, haveremos de restaurar a normalidade deste bem tão precioso para todos nós.

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