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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Que falta faz uma opção

José Caldas Costa  / Século Diário
Cresci sonhando em voar. Aliás, sempre foi meu sonho favorito: voar. Até recentemente, esse tipo de sonho ainda era recorrente. Não sei se houve alguma influência, mas meu filho mais velho é apaixonado por aviação. Não sei se por causa das histórias que contava para eles de minha infância, ou porque sempre viveu no mundo da lua, como diziam seus colegas de escola.

Claro que, até aqui, vocês não entenderam nada do que eu estou querendo dizer, nem mesmo se sonhava acordado ou dormindo. Primeira resposta: as duas coisas. Acho que eu trazia dentro de mim algo meio ancestral dos tempos fabulosos de Ícaro. Quando eu via o rastro dos aviões à jato cortando o céu de Alegre, eu lá na roça, vendo somente carro de boi de vez em quando, ficava imaginando como deveria ser belo o cenário lá de cima.

Eram tempos em que, dependendo de sua classe social, viajar de avião era algo inimaginável e inalcançável. Hoje em dia, isso ficou mais barato, muitas vezes, do que viajar de ônibus. E, apesar dos temores sem sentido, está provado que o avião como transporte é mais seguro do que andar de bicicleta – mesmo no interior, quanto mais na Grande Vitória, onde ciclistas têm que disputar espaços com automóveis ou pedestres, num frenesi sem fim e arriscado.

Alegre tinha um campo de aviação. Acho que não haviam mais do que cinco pousos por ano, mas, quando aconteciam, era uma festa, a cidade inteira acorria para lá. Avião era uma das atrações da Festa de Agosto. E, normalmente, eram do modelo teco-teco.

A Esquadrilha da Fumaça, quando foi lá, promoveu um espetáculo que jamais esqueci. Eu sonhava em que um dia Alegre teria um aeroporto, porque diziam que Guaçuí tinha. Não era verdade, o deles também era apenas um campo de aviação, só que melhor que o nosso, por causa da topografia.

A última vez que vi um avião em Alegre foi num acidente. O campo de aviação era um local ermo. O ator e policial civil Wilson Vianna, o Capitão Aza, que tinha um programa na TV Tupi, que adorávamos, tentou descer na cidade, mas havia um casal fazendo saliências dentro de um carro no meio do campo de pouso. Ele teve que forçar o pouso em meia pista e embicou na perambeira. Depois disso, nosso campo de aviação parece ter sido amaldiçoado. Ninguém mais desceu lá.

Em minha mais recente visita à minha mãe, quase nonagenária, fui ver como estava o lugar. Depois fui revisitar a história das pessoas da cidade sepultadas onde repousam, há 51 anos, os restos mortais de meu pai, que nem conheci. Nem vestígio da pista. Tudo tomado por casas, no topo do morro e nos barrancos, que se projetam sobre a parte central da cidade. Quem mora no bairro que lá surgiu, possivelmente, nem sabe que aquele lugar um dia alimentou nossas fantasias de voar.

Segunda-feira, 23 de janeiro. Voltava de Teófilo Otoni, maior cidade do vale do Mucuri, onde palestrei no fim de semana, e minha bagagem já estava dentro da pequena aeronave da Trip, estacionada na pista do aeroporto de Governador Valadares, que perdeu para Ipatinga o posto de maior cidade do vale do Rio Doce, mas ainda mantém seu charme. Na modesta sala de embarque, a funcionária da companhia aérea anuncia que as bagagens seriam retiradas e o vôo havia sido cancelado, “por problemas na pista de Vitória”.

Que saudades senti do campo de aviação de Alegre! Não que aquela modesta pista resolveria meu problema, mas é que, a partir dessa lembrança, fiquei pensando que falta faz uma pista alternativa no Espírito Santo do grande PIB per capita, do crescimento econômico, do ufanismo do petróleo.

Num treinamento de combate a incêndio, resolveram dar um pouco mais de realismo, derramaram óleo na pista do já complicado Aeroporto de Vitória, e todo mundo que pretendia chegar à capital do Eldorado ficou no meio do caminho. Eu precisava chegar e dei um jeito de arranjar um carro e correr 100 vezes mais risco que na viagem aérea, enfrentando o assassino tráfego dos últimos 120km do percurso, entre Colatina e Vitória, disputando espaço com caminhões de blocos de granito com milhares de outros carros na pista simples, sinuosa e mal cuidada, tanto da BR 259 até João Neiva, quanto da 101 Norte.

Já encontrei, cinco horas depois, o aeroporto liberado, mas, se quisesse voltar de avião de Valadares, teria que ficar até o dia seguinte. E isso fugia aos meus planos. Encontrei também a baita retenção no tráfego no Planalto de Carapina, na Reta do Aeroporto, na fadigada Fernando Ferrari. Levei de Colatina ao meu destino em Vitória o mesmo tempo que no dobro do percurso entre Valadares e a, assim conhecida, Princesa do Norte. Ah, se eu pudesse voar, como nos meus sonhos infantis e juvenis!

Fiquei pensando porque a aeronave da Trip não poderia descer em Guarapari, a 50km da capital? Fiquei pensando para que serve a bela pista a serviço das indústrias de Aracruz? Fiquei pensando por que não existe no Espírito Santo do ufanismo uma única alternativa ao aeroporto de Vitória, de pista única, igualzinho à sua principal artéria rodoviária? Fiquei pensando em quanta gente perdeu encontros e compromissos, atrasou sua vida, por conta disso.

Que falta que faz mais um campo de aviação..
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